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previsão de tempora e mores


nessa noite uma nova frente fria, chuva, desmoronamentos, alagamentos, terremotos, atos terroristas e roubalheira geral, chegam na vida de quem tudo menos espera. de manhãzinha cai o orvalho e a civilização

uma tempestade chega mas meu copo d'água é do tamanho do mundo. além do que, sou daquelas que se regozijam e lembram de onde estavam no exato e trágico momento. certeza é que se um quer morrer cedo e eterno, o outro quer andar descansando - e aquele então, que sabe usar armas e palavras? muito perigoso num mesmo floreio.

ainda tenho planos de risco e planos que risco, e também tenho palavras que são lavas - mas tudo dói, doutor! estou quase sempre enganada e enganando, enquanto tento não me tornar animal morto na via ou o matador atrás do volante, que qualquer um desses se vai voando.

o externo torna o interno parece que eterno, o que quer que seja. ou pelo menos é essa minha própria virada pros problemas que me tempestam - algum tipo de palavra ou silêncio: só quem está no interior do furacão sabe do quieto. a violência da natureza vem muito naturalmente, e coragem tem que ser servida gelada ou fervendo, é assim que se sobrevive.

mas o tempo bate mais forte do que o relógio da vó, apesar de que ando bem ultimamente - não compro mais brigas, nem mesmo com meu próprio compassar, nem com minhas bactérias. estou com todos, sou guarda-costa, braba e disposta. se um dia a arte acabar acaba o mundo mas enquanto os artistas abrirem a boca, abundo.

o tsunami chegando e o povo na praia se admirando. sinceramente mesmo? você não diz, você diz, continua dizendo, não tem nada a dizer, você só diz besteira - cala boca! que você diz balada mas eu ouço blablá, que você diz mais arte mas já é tarde demais.

retro é direto

armação preta retro: o que faz milhares de pessoas usarem o mesmo modelo de óculos e ainda se sentirem únicos?

não importa se na meia idade ou na primavera, no centro do pensamento, no meio do dia, ou na mente triste e na covardia - seja retro!

seria como ir ao cinema e sair cantando pelas ruas, como se fosse um ser apaixonado no alto de arranha-céus, falando línguas, ilustre capitão de indústria entrando em jatos, ou então abutre e rato mentindo fatos - seja retro!

e se for depois, sempre se lembre do que poderia ser só pra de novo esquecer, e se for por trás, nos pratos e trapos - seja retro!
na dor de dente, no detergente, na cultura e sexo, e pensando bem, mesmo sem nexo - seja retro que retro será!

renegados


saudade não se mata, tortura-se

"Mãos para o alto ou você é um homem morto!"
Eu estava escondida atrás de uma das cadeiras da varanda, extremamente mortal. O Beto puxou uma capa imaginária sobre seu rosto. Eu podia ver seus óculos de armação preta logo acima do braço fino. Ele rugiu: "Seu balas não podem me atingir porque a minha capa é como uma couraça de aço!"
"Bang! Bang! "
"Bang! Bang! Bang!" Eu corri em direção ao quintal pra salvar minha vida, a tempo de pular em meu cavalo e fugir. "Maldição!" Havia me esquecido da sua couraça de aço! As balas zuniam perto das minhas orelhas - ptchiuwwwnn-ptchiuwwwnn-ptchiuwwwnn! Minha última esperança era alcançar o esconderijo a tempo. A capa de aço foi um truque desleal do Beto. Ele nunca deveria usá-la no Velho Oeste! "Zanofagan!"
Meu cavalo, Silver - o cavalo dele também se chamava Silver, tinhamos uma briga interminável quanto a isso - estava quase voando, de tão rápido. Beto nunca poderia me alcançar de qualquer forma, com suas pernas curtas e olhos ruins. Além disso, seus óculos estavam sempre caindo, deixando-o irremediavelmente míope, pra trás.
Do meu esconderijo atrás da jabuticabeira eu podia vê-lo procurando por seus óculos novamente. Quando ele estava sem óculos eu não podia matá-lo, mas aproveitei-me do momento assim mesmo: silenciosa como uma sombra e furtiva como uma serpente, dei a volta em torno da casa pela passagem do tanque, quase derrubando a Hilda, que estava lavando roupa.
"Cuidado com as roupas molhadas no varal, menina, tá me ouvindo?"
"Quieta, mulher, não tenho tempo pra conversa fiada!"
Nativos desses territórios estavam sempre tentando distrair mercenários de sua missão de atirar um no outro - tão ocupados com coisas sem importância! Então ela não podia ver que minha vida estava em perigo? Um renegado estava solto! Felizmente eu era campeã dos 200 metros olímpicos, e assim em menos de um segundo me posicionei novamente na varanda, atrás do pilar, e esperei.
Silêncio mortal. Beto tinha colocado seus óculos, seguindo cuidadosamente para o quintal, seu colt pronto para atirar. Olhei para ele com um dos olhos fechados, e comecei a acariciar meu bigode. Não - tinha uma barba desta vez, uma barba enorme. Acariciei meu queixo, pensando maus pensamentos. Beto era agora carne morta. Mirei no seu coração e gritei: "Não se mova, ou você é história, renegado!"
Beto congelou. Eu sabia que o tinha surpreendido, porque o vi saltar de susto. Ele virou levemente a cabeça, e olhou pra mim pelo canto dos olhos. Ele não podia me ver assim, não via nada sem os óculos, mas ele fez isso assim mesmo: você tem que olhar de soslaio quando está em situações de extremo perigo.
"Abaixe seu colt e passe a capa de aço!", rosnei.
Vi o Beto pensando, quase podia ler seus pensamentos escritos no ar, como num balão de história em quadrinhos. Ele pensava: "Filha-de-uma-pistoleira!" Sua pequena cabeça loira estava cheia de pensamentos. "Eu sei que você está pensando, renegado! Nem tente! Abaixe sua arma ou senão!!"
Ele começou a abaixar-se muito lentamente, seu colt de prata refletindo o sol escaldante. "Não tente nenhuma gracinha, amigo!" gritei, segurando firme meu revólver: "Sou o gatilho mais rápido do oeste!" Seu colt estava quase tocando o chão de cimento vermelho escuro, quando de repente ele pulou para o lado e rolou para trás da cadeira na varanda: "Bang! Bang! Bang! Bang!"
"Bang! Bang! Bang! Bang!"
Podia-se sentir o cheiro da pólvora no ar. As balas estavam destruindo tudo na varanda. Alguns passantes da calçada também foram mortos. "Lugar e hora errada, forasteiros! Bang! Bang! Bang!" Eu via o Beto por trás da cadeira, seu colt de prata, seus cabelos quase brancos de tão loiros, seus óculos. Ele estava apoiando a mão com revólver em seu braço esquerdo, um olho fechado, apertado, pra pontaria. "Bang! Bang! Bang! Bang!" O tiroteio selvagem durou algum tempo. "Eu te atingi, eu vi!"
"Nada disso! Você atingiu meu dólar de prata no bolso esquerdo! Bang! Bang! Bang!"
Busquei refúgio no jardim da frente, atirando incrivelmente rápido. Ficamos em silêncio por um tempo. Agora não podíamos mais nos ver. Tempo para reabastecer os colts. O silêncio era tão penetrante que feria nossos ouvidos. Uma cascavel passou muito perto de mim, e a matei com um tiro certeiro.
"Bang!"
"Bang! Bang! Bang! Bang! "
"Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! Bang! "
"Bang! Tenho certeza que te atingi agora! Bang! Bang! "
"Não! Foi a minha perna! Bang! Bang!Bang! "
Segurando minha perna esquerda para parar o sangramento abundante - manquei até a outra cadeira da varanda e me agachei ali, suando muito e fazendo caretas terríveis de dor.
"Bang! Bang! "
"Bang! Bang! Bang! Agora eu te atingi mesmo! Eu vi!"
"Mas eu te atingi também! Eu te atingi na perna também!"
"OK, então! Mas agora você está morta de qualquer jeito!"
Beto caiu de joelhos, seu rostinho cheio de dor.
"Vá para o inferno, filha-de-uma-pistoleira! Bang!Bang! Bang!"
"Arghh!"
Demorou séculos pra eu morrer. Primeiro meu colt caiu dramaticamente no chão; depois eu me ajoelhei, fazendo sons agonizantes - "Arghhh..." Aí então rolei pelo chão um pouco, torcendo pra lá e pra cá com uma dor brutal. Finalmente, trêmula, dei meu último suspiro. Beto mancou pesadamente até meu corpo sem vida, assoprou sua arma, e cuspiu no chão vermelho escuro.
"Quem é história agora, renegado?"

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