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10.000 hrs


trabalhar pra afinar os anseios, descansar pra relaxar os anseios

a administração fica na mão - na contra-mão - atrapalha, vira anciã, pratos sujos na pia são constante companhia - acidentes hão de acontecer! esqueço de dormir, comer, tomar banho, me assanho com uma palavrinha mixa qualquer, perco tempo, humor, amigos, paciência, me dói a consciência, os olhos, a nuca, me preocupa uma métrica que nunca bate, um silêncio que também me poda, um ritmo, uma rima. mas no fim sempre vem a coda.

amar o amorfo


debris dispersos, restos espalhados, restos humanos, orgânicos, restos de animais, árvores, pedras, montes, montes desordenados de detritos, a rua cheia de detritos

se o carnaval tiver que morrer que morra na contra-mão, pisoteado por pés suaves, sambando sensualmente e ao compasso da evolução

a pele finíssima do sentimento


divagando: devido a circunstâncias adversas, isto e aquilo, a física quântica nos provou que os versos, etc

ô sereia, estou aqui à beira mar esperando seu afago! entra ano e sai ano na cabeceira desse oceano, esperando, sereia, onde nada? que essa espera toda não me agrada, que tanta água me secou o olhar, que tenho pressa em morrer de amar!

quiçá à grande alma qualquer


a gente se queima em água morna

vida seguiu, como sempre sucede quando se perde a noção do tempo. aonde, ninguém sabe - ela se foi pra não voltar. no passado feliz, daqui a pouco morto. ontem bêbado numa tempestade quente, amanhã congelado debaixo de um céu leitoso. mas que importa? todos nós somos capazes de um dia viver e morrer, é o mínimo que podemos fazer.

soneto que já era


propriedade e opressão andam de mãos dadas porque estão apaixonadas pelo tom e repetição que palavras dão a certos conceitos e versos

extremo abuso de más substâncias; lutas corporais gratuitas e recorrentes; comer muito e compulsivamente; raiva inadequada, paranóia e ânsias; comportamento agressivo e automutilante; severos sintomas dissociativos; acessos furiosos, olhares esquivos; relações instáveis, frustração constante; impulsividade no sexo e amizade; sentimentos de vazio e inaptidão; esforço físico frenético, brutalidade; demonstrações frequentes de irritação; ameaças de suicídio, mal humor e crueldade: sopa de frango, cama e inalação.

tem hora que só mar afora


eu sou uma fã, chego perto do que chamam perseguidora. me imagino a seguí-lo pelas ruas, despercebida. ele me parece frágil, submerso, parece deslizar enquanto eu tropeço

na minha casa há teias onde aranhas silenciam. é uma casa quase vazia, só o necessário. nela ouço passos surdos, vejo pegadas no pó, janelas se abrem ou fecham e não sou eu. sonho o poeta que habita meu armário, secreto e sorrindo, alimentando-se de traças, sedas, lembranças.
meu verso brota como água de fonte, é ponte entre as várias margens desse rio escaldante que sou. um oceano em movimento, uma constante, sempre estará lá: muito próximo, mil vezes distante - como uma amante, como as estrelas (e continuarei a comê-las).

eu olho os meus olhos à cegueira


e gosto do meu caos às terças

sou um segredo a ser mantido, não perdido ou esquecido
sou relaxada e poderosa, um desenvolvimento cultural
sim, sou preguiçosa, mas não me leve a mal
sou um talento tardio, um tesouro que os piratas não reconhecerão
quer dizer - na verdade não quero dizer nada
nem estou prestando atenção

o que se foi, foi-se, egonauta


paradoxo: erudição em cima de uma idéia idiota

é possível que sejamos saudosos de nós mesmos? de um tempo que era um outro tempo ainda, quando o tempo não passava?

♬ esse menino é demais, ele sabe o que faz ♬
♬ e quando crescer vai escrever NO-VE-LAS ♬

nada de novo acontece nessa nossa vida topi-popi. é tudo repetição do mesmo - só que com roupas mais crocantes, às quais se paga caro, muito caro, e das quais nos envergonharemos algum dia. entrementes, todos juntos, pulsantes, variando idéias de se ser otimamente, como se fosse verdade essa variedade. somos criaturas de nada, nossas dúvidas diárias e noturnas parecem mais dívidas mal bancadas. e nem sequer cantamos na mesma pauta!

nostalgia


no bar ainda é domingo, todos parados, em paz. apesar da má sintonia o dia foi bom demais



a noite está quente e clara, com um ar parado, saturado, respirado. o casal senta-se à calçada, em cadeiras reclinadas, controlando o passado.

na varanda, seu filho retardado toca algo felliniano num orgão velho, desafinado e grande. o casal, marcando o tempo, segue a gente que passa de olho atento - de olho árido, sólido, irritado.

nessa mesma casa, há muitos anos, outra geração dessa família em serenata - em vez de orgão, uma sanfona - dominava a noite e a nostalgia. com o mesmo toque seco de melancolia.

terminado em ponta


onde nada é o que parece, mas muito mais sutil

estou mais pra drummond que pro mundo
drummond é meu homem, minha solução
meu lamento muito, uma lembrança que bate
um tapinha de nada, um tapinha de tudo

dirija com segurança


dê poder a homens pequenos se quer testemunhar mania de grandeza

cuidado com o amor volátil, ele vai queimar suas luvas, e todas as suas peças perdidas no chão? suas fichas e chicletes e pentes, mesmo as cinzas que pairam lentamente na virada repentina.

seja prudente mas tente não temer a fatiga, pois suas mãos tremem, amiga. seus olhos estão distraídos nessa busca por tantas coisas desviadas - perfumes, sinais, sons, traições - e o silêncio?

exceto pelo lamento seja discreta na esquina - que se tiver pressa vai capotar, ser esquecida, e o calor do seu desafeto vai queimar esse altamente inflamável anseio por nada. por nada.

saudade da possibilidade


quando a sociedade nivela por baixo, a decadência já ocorreu

virei a curva e a correnteza me pegou: o que se perde com a idade, além de tempo? lá vai minha vida de segunda a segunda, sem dias entrementes - e tanta gente sem dente, sem cabelo pra pente, sem olho pra lente, tanta miséria velha e dormente!..

na tv o povo anda maquiado, como se deve. mas não eu, que quando estou só me esqueço de dormir, de comer, tomar banho e sol, eu que viro um assombro enrolado em si mesmo, uma coisa se mordendo que nem sente, com um salário rente, e a dívida - a dívida, gente!

as coisas andam quentes por aqui, muita partícula se agitando no ar, muito atrito produzindo dor e eu tomando aguardente, sendo deprimida ao sol brilhante - eu, bandeirante (antes desbravadora agora só brava), dolorosamente sobrando e soprando as mordidas desse monstro demente que sou.

no feijo é onde está o gostoso


por que uma mulher rouba 500 flores?

os dias passam rápidos ou lentos, mas o sol não chega, nunca. aqui há um deserto de leite: céus brancos mas barulhentos, arrastando seus tons molhados, e um vento consistente como escolta - consorte frio, digo em voz alta.

ouço minha voz como a de um estranho, enquanto pessoas passam por mim: um cara com um casaco leve, um homem com uma carga pesada, um outro mais novo que seu filho, e turistas em fila, hesitantes como um inseto longo, centopéia platéia.

nessa praça o dia termina e a noite não vem. faço essas notas e estou só - daqui a pouco estou velha também, não mãe nem avó. não saberei os nomes de amigos enquanto rodo pra todos os lados. sentir falta será como estar completa.

certa vez, entrando numa sala eu vi deus sobre a mesa, como a preencher um vazio - pesado de papel e conceitos - e tive que rir: como são bobos às vezes nossos medos e fantasias, injustos. herdei de meu pai as palavras, de minha mãe herdarei as lavras.

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