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ô lágrima boa!





escolha um trabalho que você ama e não terá mais feriados, fim-de-semanas, férias, pensão, tempo pra família, sono pro colchão.. vai andar feito sonsa, sem vontade de sair pra pegar um sol ou entrar pra lavar a louça


que sempre linda!
a poesia esticando o tempo
pra gente ouvir mais ainda
o mesmo passarinho
e eu, que nunca tinha pensado
que a feracidade do artista
era feroz e minha

ô lágrima boa!
senta, e vê o rio passar
vai cometer palavras, exageros
vai rejuvenescer enquanto pode, amar
que na paixão dois menos um é zero
e o mundo não é eterno

mas há sempre a voz dela
sempre noturna e terna

você merece toda felicidade do mundo, contanto que não pare de sofrer pro meu entretenimento


fade in
a camera segue um caminhão de lixo pela cidade, na cola, em movimentos rápidos e nervosos, viradas repentinas, cortes e paradas bruscas.
de repente o caminhão para, num solavanco, e um cadáver nú enrolado num filme transparente é jogado na rua.
fade out



quando a morte quiser me pegar, deixa então ser de rasteira
ainda quero ver o céu a jato, a cor em três dimensões, sentir a brisa morna
os sons, os sentidos condensados em um só segundo inesperado
de despedida

artisto meus tristes resquícios


um elogio me agrada, mas me esqueço e mais nada. sua foto passou por aqui mandando lembranças sem fim. somos tantas urnas puras, triviais, inseguras! e um pouco de aton, claro..


o que me é dado é o que tomo
de todos, antes - agora meu
e é assim que somos amantes
nesse acaso de cromossomos

dialética do armário


quando criança me escondia o tempo todo. hoje sei que muitos mais se escondem, tudo solitário, não se sabe onde


ah como queria ser narciso
satisfeita com o reflexo na janela
com o toque dos meus dedos em mim
meu sorriso suave, meu acalanto
minha solidão cheirosa
mas você deixou seu olhos em casa
como faço pra devolver?
você deixou suas mãos em casa
como faço pra devolver?
deixou sua voz em casa
como faço pra devolver?
seu cheiro em casa
como faço pra devolver?

a triste verdade é o ser humano


tem sempre um pra moralizar o prazer puro, tem sempre dois pra se trancar no quarto escuro, tem sempre três na pressa pulando o muro, tem sempre quatro, cinco, ou seis - tem de tudo, meu tesudo, e ao gosto do freguês


tem sempre um pra não prestar atenção, pra dizer não gosto, não presta, não sei, não na boca, não me deixe, não corra, não atenda, não te vi, não se levante, não agora, não me lembro, não na rua, não engravide, não morra.

um de nós está sempre preso no nunca, um de nós está sempre atrasado pras coisas do passado, sempre. e não há nada que possamos fazer, nada, nunca.

no multiverso meu poema

aqui
perdi
a rima



que quente, tanto canto a cinco segundos atrás
mas a lua rápida passou-lhe uma rasteira, linda
a vida é isso - um suspiro, um soluço
vencervencervencer - tentar é não estar!
vidência grátis, amor dinheiro trabalho - qual o seu futuro?
revelar regozijar revirar remedar reverenciar
e o criador, é como um pai - apenas um criador?
e a realidade, é palavra dita - espuma do mar?

associação mais aflita


descobri a palavra esquisita, já há tanto tempo escondida, agora um esconjuro que me excita sem medida no escuro, na esquina, no isqueiro, ex-quesito de explodir no mosqueiro - islamita com roteiro suicida!


olho por olho, dente por dente
cego por cego, desdentado e demente
a vingança que colho não vale a semente
dessa paz que me nego, dolorosamente

sei que tudo vai terminar bem no fim da fita


sumiu o rabo do cão quando o vento levantou brabo, daqui a pouco cai o céu. e eu, que achei que ia sofrer, ouvir o vento, o cão rodar na corrente, uivar, virar como o vento, enganei: não me envolvi. nessa aventura só previ e errei.


atualmente ando muito ocupada, mas é normal essa preguiça. raiz é bom pra crescer e podar - coisa que a gente aprende a profundeza só depois de esquecer. maior bagunça no quase outrora daqui.

na paixão, nosso próprio também nos fascina - as sensações do corpo que é a outra metade do um (+1=11). seduzir é precioso, reduzir é preciso (11 é nunca, né?)

já a natureza humana vive de tempestades, já a gente é insatisfeita só pra fazer a futura insatisfação satisfatória e total, já nasci com deficiência social. já não me sento pra não me sentir - menos no cinema, vou mentir?

amor de plástico


por que só declarar o amor quando se pode declarar o sexo? nada como um bom cafajeste pra acordar a gente no meio da madrugada


eu disse que te amo
por amor
mas menti: não te amo
disse isso pra tornar o que já morreu
algo ainda palpável
pra transformar aquela flor frágil
e morta
em flor de plástico

cruz-credo


bem ou mal: a cada um que me aparece são muitos que se vão


no cristo, na crípta, no crime, no cravo, croquí, na cratera, na crise, crochê, no crú, criatura, no crespo, no crédito, crepon, criminoso, cronista, no cromo, na crosta, crucial, crucifixo, crisalho, crescença, crueza, no creme, crachá, no craque, cremado, no crânio, critério, na crista, croata, no crasso, cristão, na creche, cruel, crocodilo, croinha, cronômetro, crônica, cristal, cruzamento, no crepe, no crápula, crivado, cretino, na cria, criado, crupiê, na criança, crioulo, no crítico, crustáceo, crepúsculo, no crente, não creio.

ser o que sou, sendo


quem tem memória cresce, quem é idiota esquece


às vezes tenho medo e choro porque quando pequena vi a novela sobre o poeta que morreu pobre sem saber que sua arte mudaria o mundo. porque quando jovem li a estória do artista teimoso arrastando sua família na miséria de um talento medíocre e imediatamente esquecido. porque minha teimosia também é feita de aço e meu anseio de melancolia. e porque quando varro o chão, varro meus pés.

cobrir ou descobrir, eis a resposta


distraída, olhando o horizonte um tempão: se considerarmos que tudo é tremor, então o milagre perene é que nada se dissolva cada instante


a idade avança mas não me alcança, disse a criança. e diz a promessa que o tempo passa depressa.
bem que nasci pra isso - pro riso que corre com o rio claro, cristino, das pradarias, das felicidades em mil cidades, da historieta indiscreta, da crueldade - daquelas que põe a gente quieta - e essa dor que parece não cessa, e o arrepio do omisso, e o bom sono dos normais!

mas nunca é cedo pra ser tarde demais.

ao mestre que morreu orgástico


o poeta deseja o mundo e se deleita. depois, no fim da linha, definha


vem, querido, queimar minha mata com seu fogo
afagar o trágico e impossível afogo
que aqui eu me absorvo
e transbordo
violenta
men
te

com dinheiro ou sem dinheiro, meu amor, eu brinco


o criador se preparou muito bem pra cometer esses erros


nada é mais cheiroso que o peidinho da amada, diz o mestre-sala dos bares, saudoso, mandando brasa na madrugada. nada, sereia, nada.. volte logo pra mim, com um sorriso e mais um copo de gin! um dia desses no fim de agosto a gente se cruza, por acaso ou por proposto!

ele filosofa: se o sangue é sempre vermelho, a merda nem sempre é verde. pois olhe - o ser humano tende a tribos, todos se encontrando no mesmo clube. mas mistura boa é na piscina genética, que a social não te dá carteirinha à toa nem com certidão e exame médico.

duvidar da vida é devida dívida pois se o tempo passa, não cozinha nem limpa. sobra o cheiro da terra quente, molhada, de quando a gente andava mais perto do chão. ou o perfume de lenha queimada no colo da avó e no forno de pão. aí o mestre soluça, um novo drinque na mão.

ave! os que vão morrer te saúdam, ele grita, chore por nós, vida desgraçada! chore pelas crianças que morreram cedo e andam armadas, pelo fim da cultura nas mãos de governos brutos, ái que todo dia morre um rosa no sertão, ái que quanto mais dor mais noturno o tudo!

e de repente ele se lembra e ri: nada como um rosa um rosa um rosa - quanta erudição perdida por homens fedendo à censura! verdades demais, verdades de menos.. e apesar do tempo estar envelhecendo o que tem viço ainda tem verdura, que é de tempo que as coisas entendem.

o mestre continua, caindo pelas mesas e clientes e garrafas e cadeiras, quarta-feira que é o dia e é a semana sensual no seu tom cotidiano. ele canta - deixa eu morrer numa quarta-feira quando todos trabalham e a vida é ligeira, ái dos casados com a rotina, ái dos solteiros!..

ái, que essa vida não vale nada nas mãos de quem não tem nada além do tempo inexperiente, cheio de energia, ousado, eterno e tenro, renascido todo dia às 5 da manhã - êita vida anciã com mãos de infante, extrema passageira extravagante, ái essa vida, que é um instante!

vaca fria no meio da sala só traz felicidade


a felicidade de sonhar um dia sem vaca, sem cocô de vaca, sem mugido de vaca, sem grama e sal pra vaca no tapete persa, sem criança e sogra no quarto de dormir, sem meleca de vaca no prato de comida, sem noites insones, sem dias estressados, sem essa merda de vaca fria no meio da sala


a experiência nos ensina que:
pontes velhas sempre correm sobre águas novas ✔
ingenuidade é diamante ✔
o mundo velho está envelhecendo ✔
tragédia vem de dentro pra fora, não de fora pra dentro ✔
o povo quer mais é gritar, bater bumbo, fazer barulho ✔
a vida é uma constante perdura ✔
se algumas pessoas nos fazem sonhar, outras só nos dão pesadelos ✔
santo não existe mas milagre sim ✔
vício não é pra dar um tempo mas pra dar muito tempo ✔

sobrevida é mais vida?


deus nāo é surdo, nāo fala, e nāo existe

posso te matar mil vezes, de ida e volta e volta e ida, que você permanece num pós-gosto de algo irreconhecível, ainda mais violento no outono da vida. esse é o verdadeiro nervo de alguém inóspito e saudável, sem saudades ou hospitalidade mas confirmando a dispensabilidade do pensador: nós, circulando em torno do forno, considerando seus adornos enquanto o bolo inflama, no corno do nefando brama.

tive que ser várias vezes pra desentender melhor


toda vida é mais que válida, mas vale nada nesses anos que passam rápido demais pela nossa eternidade

cega, maestra do tato
poeta, que se elege e se eleva
cantora, orquestrando minha dor
saudade, esquecida e tal
artista, suja e exausta
martini, mexida e molhada
mulher, no amor que transforma
formamor, obrigada

crônicas do vazio


primeira lição: 'fale com autoridade e convicção ao movimento irracional de seu eu mais profundo.'


a musa foi pro rio
não suma, musa, não desapareça nos braços desse redentor que não redime, não salva ninguém nem nada na selva! volte e me envolva, não me abandone! me envie um sinal, minha veia meu rio meu mar - me afogue, sereia!

um homem sem história não deve explicações a ninguém
o tempo não passa, o tempo só acalma ou enerva. mas essa preguiça persistente é um estímulo muito conhecido que nos leva longe, e momentos de humor sempre se farão presentes. aqui há uma verdade primordial, tão fascinante agora quanto antes: cada um de nós é um animal raro e perdido. uns mordem, outros querem ser mordidos - o selvagem será meu preferido, mesmo se preguiçoso e nunca precavido.

pequenas tragédias são muito entediantes
ao contrário do sol, o raio de lua é frio, dolorido, e fere com brilho. causa uma queimadura branca, subcutânea e oca, e provoca dores de terceiro-grau na cabeça e no corpo. sintoma ocasional é o céu-da-boca tenso, travado de estrelas, a ponta da língua tangendo os sentidos - todos menos o tato. meu rosto teso, redondo, precário, se reflete no espelho do armário. no fim desse silêncio insone um galo canta, um motor se inicia, e o luar da minha sinusite perde a poesia.

bicho de novidades


não é possível saber o que somos, mas o que fazemos tem sempre alguém pra certificar até o último detalhe

tudo me comete. não vale a pena ficar brava com meu caminho andado. foi-se com o sol e não voltou? pega a arma e o armor, esquece a palavra linda que há tudo mais a ser feito. não crescemos na mesma sala? espalha o óleo, queima a água, somos todos nós livres nas mesmas cinzas, reféns da mesma voz, nós e ninguém mais. não viajou pelo universo? desliga a tv.

(mas poderia ser pior, poderia ser na itália num domingo de sangue e sem rimas, jantando com a família..)

empalavração


a vida não tem final alternativo. final alternativo: a vida está cheia de finais alternativos

um grito aqui, ali um latido. conselho: lamber as lágrimas, para melhor consolo. é o livre exercício da vantagem pessoal. papapapapa lalalala nhenhenhenhenhe, quando os peixes vão pescar eles não buscam peixes. contei um salto.

sim, querido, vamos falar do tempo, das chuvas, da areia, do pó. é disso que vamos falar, não do amor ou do esquecimento ou do que for. mas não se lembra? meu sorriso quebradiço é ácido puro, e de uma simplicidade clássica: sim, querido, o vôo dos pássaros, todos compartilhamos esse anseio.

eu já andava imaginando quando essas belas palavras iriam começar a se mostrar, como hormônios mutantes, um vírus atacando o sistema, alguma doença estranha. somos heróis sem coragem. quer tentar umas variações? violinos, muitos muitos violinos.

momento de esquecimento


tão sábia que quase sabiá

hoje acordei com certas palavras
umas que me puseram a dormir
pensei já no sonho - quero lembrar
e lembrei assim que abri os olhos
agora, depois do café, perdi tudo
menos meu anseio pelas palavras

agoras aquis, depois lás


selei meus lábios, prostrei meu coração. mas mudar o discurso não muda um destino

já a vida inteira as mãos e as palavras me ocupam, eu sozinha no meu quarto. mas de vez em quando acordo quando não durmo: viajo o mundo, aprendiz, trabalhando pra todos os lados, meu firmamento insólito.

tem gente que sabe muito, fazendo trabalhos simples pra pagar o aluguel. tem uns que não sabem nada, com diplomas e roupas e palavras truncadas. o clima é pesado, o ser humano um vírus complexo e mortal.

mas em geral nem mosquito eu mato - e são tantos! chego rapidinho, de saída e já me fui - mas sempre volto de antemão porque dentro da despedida vivo menina eterna. de qualquer forma, tudo vira sopa ou se aprimora.

abstração


meu filho tem 6 cotovelos!

foi graças ao atraso e terrível resmungo da própria alice que o animal foi encontrado, espezinhado, roncando profundamente em algum lugar por trás das cortinas bordô.

enquanto os visitantes bocejavam - todos prontos e gelados - aquela coisa cor-de-rosa enganosa (um foguete! rápido! pegue o sentido desta história!) exalava algum tipo de matéria cinza.

ela estava - alice estava - limpando as folhas pequenas de seus ombros, três ornamentos sinceros, medidas de um grande e gotejante inverno.

ainda é possível sentir simpatia nesse inferno.

exercício em dor


uma necessidade de destruir que parece ser vital

às vezes a minha vida é um monstro que se come, e não há sol nem primavera que me livre do perigo. é um anseio pelo nada, uma fome de inimigo: mãos vazias, olhos vagos - mundo, gente - tudo some.

a cada passo adiante a ameaça se aproxima. um milímetro pra morte, um segundo que se esquece, uma brisa morna e doce e meu corpo se estremece - quase rogo o flagrante, a surpresa que dizima.

mas cuidado com as palavras, tem poder absoluto! criam tudo, dão sentido, são o sal e a agonia. a alquimia que cometem, que minha vida evidencia, faz a pena - o castigo - que eu mesma executo.

meus limites são infinitos


comecei a dar nome às bactérias, que com elas compartilho meu espaço

alcohol é analgésico pruma dor que não se ausculta. descobri umas marcas roxas no meu corpo, que não me lembro e nem senti ou mesmo sinto. existe nada pior na vida do que deixar sensação e sentidos passarem desapercebidos.

quem me lê pensa que sou só, só eu, triste e pronta pra ponte, pro pulo - eu, que tripulo o desmonte! que nada - não sou, sou só meio desajustada, sou muito nova mas velha demais. invejo o sol porque hoje é sábado, o resto é enfeite.

é que às vezes me sinto como o james dean na cena da geladeira: a única que me entende e me acaricia é a garrafa fria de leite.

a criadora e a criatura


diz, se o baião começa eu não paro!

fazendo o imposto acabo me distraindo um pouco. brinco com palavras que não são minhas, lúcida e ousada: 'que pode uma sereia senão, entre criaturas, afogar uma criatura?' sempre bom demais, isso e a lua.

fazendo o imposto anseio um segundo de felicidade eterna que já se passou antes do fim dessa frase. o tempo que as coisas necessitam não cabe aqui, muito menos nos meus anseios ou nessa administração.

fazendo o imposto ouço baterem bola na praça. a noite se espreme pela janela velha, está muito frio - muito movimento, muita coisa a fazer, e acabo me perdendo na multitude das palavras que crio.

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