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com din-din ou sem din-din, meu bem, eu brinco


painel de arxvis, 2012

DACE apresenta
Centro Cultural, Seu Próprio
[catalisar as impressões do sujeito do/sobre o espaço público]
Centro Cultural São Paulo

pense antes de calar




me lembrei de uma história, um quarto de hotel - eu tinha essa expressão na minha cara e um monte de rabiscos como esse


bicho esquisito esse ser deshumano
incomodado, com tesão
necessita rápida solução
nunca cessa de me cessar
bicho esquisito esse ser deshumano

a arte de sofrer é uma das mais difíceis de se dominar
dominada vira paradoxo
masoquista não quer domínio
bicho esquisito esse ser deshumano

e a gente se achando bonito
a gente comprando prada e versace
como se com isso mudasse a face
como se tudo não fosse uma farsa

e põe nossa nisso!

represe por nós, pescadores



"a mesma pessoa que matou juraci matou dona freda": perdi a novela mas não perdi a vida.

sou a guardiã das imagens familiares esquecidas. não é um peso que carrego, é um prazer que cometo. a cada nova foto assimilada me transformo em mais gente, num sumo concentrado de muitos, que uso todos os segundos pra me reinventar. é nessa essência histórica que eu cresço e nunca envelheço. apesar do drama, é claro - e obscuro, na verdade.

os olhos são manchas, os rostos são manchas, mas as vidas são mais que manchas - são material fluido e ar, pensamentos e memórias. uma tia morreu de repente, aos 18 anos de idade, de alguma doença terrível e misteriosa. sua existência na fazenda, e sua morte em duas frases. tenho seus retratos 3x4, vários: com 12, com 14, 16, 18 anos. fim.

são tantas horas da aurora e tudo vai bem. a poesia no colo da mãe, a inocência da boca amanhecida, o homem dentro da mulher dentro da mulher, o acaso do feliz para sempre, a crença escondida na cômoda, a novela sem fim. paixão sexo inocência traição. o amor para além das mentiras, para além de quando a chuva parar de molhar, para além de alguém dentro de alguém.

na penumbra da varanda, aquela mancha cinza móvel sou eu. quando o tema da novela começa, eu paro e ouço. cantarolo junto - ainda posso - nunca mais me esqueço. a tv em preto e branco mente as cores, mente estórias em geral. tanta moral acontece que nem se percebe a morte por asfixia. na repetição familiar, a novela é uma sequência de imagens de todos, uma mancha de sangue no melodrama da memória.

improbalada

relembro: encontrei o amor quando já tinha deixado tudo pra trás. nunca mais o perdi, mesmo me custando membros e órgãos vitais

a memória não importa muito quando nos esquecemos
nesse segundo perdido
o tempo está sentado na varanda
observando as estrelas e não a mudança na vida

há uma brisa frágil
de resto, o silêncio nos contém tão completamente
que nos esquecemos de tudo e caímos neste instante
inesquecível, ininterrupto

mal comportamental


uma senhora idosa entra na farmácia: "o sr. tem a pílula do suicídio? que foi tudo minha culpa.."

a mulher atrás de mim tem problemas nos ouvidos ("turbocurso, não tuberculose!"), eu não posso dormir (há um sabiá que me maltrata na madrugada), chega a dor de cabeça (dores musculares por todo o meu cérebro), e o cara da frente fuma e grita como um grego velho (aqui falamos grego).

tudo isso se perde entre textos e notas. olho a janela: uma jovem caminha pela rua, seu cabelo em rabo de cavalo balança pra lá e pra cá num sem fim, parece falha no tempo - na matéria do tempo - como se a continuidade fosse um plano maleável, cheio de momentos excedentes, rasgos e nós.

uma dose muito forte da vida mata? lembro-me de minha infância como um pensamento sem fim, um sonho - mas eu sou só uma sombra do que era, eu sou o sonho agora. na infância é que foi o pensar, naquela criança em que existi (anos depois, quando parti, meus pais ficaram ali acenando com as mãos por 20 min., enquanto eu tentava ligar o carro).

ando cansada das coisas fáceis, das presas inúteis, das bebidas, do aplauso parcial. desse o fogo infame, dessa inveja ridica. os sensíveis também endurecem. respostas que se acercam e que nem perguntei vão se amontoando, cheias de barulho, cheias de razão - cheias de si - e carregam meu corpo refém. existe trivial mais triste do que o que assiste o mal e não grita?

ah pobre artista, vendo com olhos límpidos a negra luz do lancinante vazio



nossa!
minha avó cruzou suas tias
em outras fotografias!



por que tanta conversa nesse estado de espera?
será que só eu sei o segredo da caça?

se contato com micróbio previne doença
no contato com humanos não há quem vença

fiquei muito brava e juntei-me aos rebeldes ridículos (nome de banda)

um dia é disso, outra noite é daquilo
antes era escuro, agora, claro - mais tarde mais do mesmo
é o cúmulo do cúmulo
mas estou pulando fora enquanto esse trem não decola

sou uma pessoa obscura com manchas cor-de-leite
mas e você, que está hiper-pesado de coisas e culpa?
(tudo bem, só conto pros amigos de amigos)

aqui cai os quintos todo dia às quatro e quinze - é um inferno!

você sempre reclama, empurrando o tempo
ocupado demais pra ter cuidado
eu, eu me desalento e dissolvo
drenada como uma princesa

a gravidade de veludo em casa
a canção de ninar
cada desejo perfumado
- mentira!

no nosso lar é muito tarde
porque dissimulamos
- tudo!

na hora do jantar
sob nuvens chumbadas
que par somos
- nós!

você diz balada, eu ouço bla-blá

mas tenho muito boa índole: nem com minha lombriga eu brigo


nada e tudo: mulher com medo, velho com anseio, criança em bueiro
o suor glamoroso e a baba repentina - de onde veio esse cheiro?
quem mandou esse frio, essa gente vazia, esse nada que apraz?
e cadê o vinho, cadê o cafezinho?
quem mandou fazer sabe o que faz

cavalo das almas

em cada canto seu pranto


faça o certo, faça o bem
muito íntegro e incontrolável
nesse momento de orgulho
nos ataques com talheres
de frente à crise, ao desastre
à cultura tóxica
- ‘pague hoje e terça' -
ao luxo degenerando em necessidade
ao papel de jorge nas mortes
e abrace a verdade, sua coisa:
há coisas mais urgentes a se tratar

mágoa

hoje eu vi a vida acontecer. de repente, virando a esquina, enquanto eu pensava em cicatrizes e em como viver com elas. divaguei que reconhecer os limites já é seguir em frente. pensei em frases e palavras atraentes, poemas e coisas sonoras, um sentimento de estar e ser lá, na hora, naquele momento, amadurecida. quando de repente, virando a esquina, aconteceu a vida


ele se foi, eu não, eu só fiquei aqui doendo, sem ele, nenhum coração. que se foi. quê? ah deixa, eu realmente não me importo mais, não tem mesmo nada a ver comigo. então, essa dor, não estava doendo, era algo outro, melhor - como uma dor muscular que dói mas é bom, como se eu fosse algum tipo de masoquista que não quer nada exceto mágoa, só para me sentir como se ele ainda estivesse lá, o coração..

decisão, nome bom de cerveja


a conversa está muito boa mas enjoativa


o ensaio do jantar: desenhos, rabiscos, rostos, um rio, o passado, um momento - tudo isso digerindo o esquecimento.

extrato de mestre


escreve no meu muro, poeta, rabisca o que for, o que quiser, o que sacudir da manga, tudo e mais um pouco - um pontinho na linha, um pingo, uma interrogaçãozinha, e suas mil palavras serão minhas - também quero nossa conversa transbordando e queimando mansinha


a febre do poeta queima mais. nessas horas dissonantes, quando ninguém mais quer ouvir, seu contratempo não é tristeza - é jazz bom, improvisado. é o sofrimento de todos em um só. a crosta de cada ferida é que difere.

palágrimas de artriste




estou aqui abraçando lobos, crente que eles gostam



pobre artista solitária
então não te viram prostrada e próxima?
te empurraram pro lado, no bar?
cuspiram no teu ar? tua auto-estima?
triste artista - artriste
ainda não sabe que tudo vira rima?
que o apreço vem tarde e de graça?
que o que se paga pelo desejo é só uma vida
o que não é muito - uma vida às vezes até curta
o que não é nada, uma vidinha de nada
vidinha mais barata o sr. não encontra
em nenhum outro lugar nessas paradas

esse nada que habita está cheio de gente cega
todos cegos e chorosos
e tuas imagens escorrendo por bochechas trágicas
palavras de crocodilo - palágrimas
só pra chamar atenção
(se fosse mãe maltratava o filho no hospital
se fosse líder chorava na tv pedindo perdão)

grita agora com o poeta - arre!
e vai fazer feijão

dados de dudas


deitar e morrer devagar ou levantar depressa e viver?



depressinha na depressão, tropeçando, e quando não, em marcha lenta. mas eu dançaria sim - oh eu dançaria!

por enquanto escandalosa, sentada na sala, minha cínica malícia - sim, eu sonho felina - muito sanguínea ainda que azul pálida. quebradiça e transparente, como se deve ser.

sem prazer meu anseio é cru: quem tem poucos recursos regateia (o) insensível. no tato, na idade ideal, no de fato etc e tal - quantas linhas ainda tenho que escrever até chegar o não tão final?

superstição é a mãe de todos os deuses


eu sabia que havia cheirado fracasso em algum lugar


o tempo que as coisas necessitam? segura esse céu e as montanhas, que grande é nosso momento, e diminuto. isso mesmo: um senhor ainda mais escravo, o aplauso parcial, o saque e o roubo, a impossibilidade do novo. e mais (ou menos): uma cultura que trabalha em fúria - como se vivêssemos num filme - sobrevivendo às flamas de um sol frio e também moribundo. em vão.

no dia em que ele começou a falar de si mesmo na terceira pessoa foi quando parei de ouvir.

e por fim um abraço e um prazer


eu quero tudo isso! eu quero aqui e ali e nada e na hora!


o querer cresce na gente? ou querer chega assim cheio e completo, pronto pra servir na hora certa? e querer é desejo? mas o desejo vem manso se eu deixo. e se o querer me toma abrupto, eu vou e domino o bruto!

não - o desejo mora em outros compartimentos do ser, o desejo mora no cantinho de seu sorriso, no escondido dos seus olhos entreabertos semiazuis, nos pelinhos loiros diminutos na curva da sua nuca, eu pristina e ronronando..

querer não é fácil de se entender. onde foi? foi só buscar fogo pra me queimar de querer.

quanto mais te quero, te quero mais


do amor intenso e só nosso eu muito entendo, e insinuo nossas tendências tensas e nuas: onde duas águas se encontram dão-se mil margens, minhas e suas



já me ajoelhei, me derreti, já torci meu torso praquí e pralí, já gastei meu dinheiro com sapato e cabeleireiro, gastei as segundas, as terças, e as quartas à tarde (entrementes, na minha natureza só tempestade), e esse meu coração que só te bate porque te ama - saiba que meu coração quando te bate dói mais em mim que em ti.

o mundo se despede, e quem me pos assim de frente com ninguém e todos também se despe pro último ritual








vivendo devagar atraso o fim do mundo. olho no espelho e conto minhas rugas, como minha mãe paralítica os grãos de feijão. nada a se envergonhar - esse o nosso caminho, desvendado na traseira de um caminhão. mas, diferente dela, sou eu que carrego a vida e a verdade, o que parece pouco mas não é nem metade


mamãe querida
lambe a ferida
assopra essa vela
escolhe o feijão
escova o cabelo
limpa o chão sujo
veja a novela 'denúncia do amor'
enrola o olhar e a rosca e a dor
olha essa noite que te olha
e pensa na casa
no casamento que extravasa
no caso que te arrasa
mas solta o maxilar, mãe
solta a saudade
fica tranquila que eu ligo
solta o cheirinho de avesso
a comida salgada dizendo paixão
a memória do berço
o penúltimo cheque do talão
solta a risada e a minha mão
eu vou com você, mãe
eu te levo comigo

triplicando o cabo da boa esperança


o que a gente não percebe o corpo sabe de antemão


não insista nessa falta do novo
não há reta nem revolta na ribalta
mas há outras coisas - há o fim do dia
há de novo a noite internacional do mundo
há um treco que se forma e se repete
as pedras e o grude sempre os mesmos
no raso e no fundo, de longe e em cima
e tudo isso muito lógico
sólido e eletrizante

enquanto o dia não acaba


às vezes sou muito perceptível, mesmo no silêncio, no escuro, ou quando não estou ou quando me deixo esperando até o último instante. faço que descanso, viro sumida, já de saída - flecha solta eu vou, voando. mas tem hora que não tenho o espírito, só a vontade. tudo bem, uns sofrem mais que outros e tudo no fim é mesmo só uma questão de segundos


descobrí num canto da casa um quê empoeirado da vida, e limpei com um pano molhado. todo dia esse ato me atrasa o trabalho, o amor, a acolhida, o olhar, a ira, o linguado queimando com ervas na brasa, a água já seca e ardida, meu riso um deserto cansado. à noite, a lua me vaza - murcha, só, aborrecida - seu segredo indiscriminado: fica quieta e não extravasa, a alegria vem sempre medida, e esse pó é teu triste legado!

amo até as bactérias (as venenosas)


herança, ou a difícil hora de fazer escolhas: sacar a rolha ou jogar suas cinzas fora?


foi-se o momento de fazer amigos, de fazer que não viu, de arrumar e desarrumar seus sonhos, de imaginar os por quês e as razões - de quantos somos, de qual o fim, em todos os sentidos e sentindo a todos, e tudo há vinte e um minutos atrás.
é o tempo que não para.

mutações são moléculas da vida









minha mãe escreveu:
nodanenimostin
nodonimenon
onominovan
ontinion




homem / mulher

aquilo
que criou o ser humano
não é perfeito

e depois, isso
sua santidade
um pensamento
fantasma de um verbo

palavras voam quando você está se divertindo

o mala


o humano no automático com sua pele de plástico e seu sonho doméstico e seu sorriso apático, que mata o que mais ama queimando o que apunhala no meio da sala, sua mala feita e pronta no seio do nada


você pode evitar olhar para o sangramento profuso na sua perna. você pode até ignorar a dor profunda. você pode simplesmente se sentar na poltrona e assistir tv como se os crimes fossem filmes e as novelas reais. isso não vai mudar o fato de que nada sobrará de você no último ato, poltrão.

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