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109 horas e tudo vai bem

vida: dizem que é origem, isso. tão lindo - não queria nem morrer!

aprender a viver é fácil
você cai duas vezes e pronto!
mas uma pausa, intervalo?
esquece e desembesta na descida
passa isso, passa aquilo
quando chegar a placa 'entrada proibida'
é aí que você entra - mas tranquilo!
é um ninho de cobra e dragão
todo mundo com veneno
todo mundo se mordendo
tudo espuma e solidão
(não se preocupe, meu amigo
que o mal é o antídoto)

agora entra e vira lembrança
o estranho da lembrança
o brincando de esconder
o esquecer

o paraíso perdi em piripirí


estou cortando o tempo, meu amor, e 10 minutos adiantado. meus molares gelados, os eus associais, plasma e gaz de ferro - todo o magma da alma. pensar que eu ficaria feliz com menos quadros por segundo e mais segundos por quadro!..

a vida vem embrulhada, de presente, e segue nos embrulhando; ela vai tranquila, nós correndo atrás dela; nós, deuses diminutos, envelhecemos, enquanto que essa vida magnífica só se renova e rejubila; ela nos compõe e nós dançamos; nos decompõe e nós nos unimos.

ah vai tempo grávido - cozinha no fogo fátuo essa vidinha minha, menos rápido!

desejar é uma felicidade só; conseguir, uma grande decepção

cerquei meus sonhos, tranquei a bagagem. mas não consigo ficar à toa, agora conto o tempo, empurrando barro. pro espaço é só um passo

tenho andado muito em torno da casa
da cozinha pra sala, logo ao banheiro
depois paro em frente à janela e vejo
de repente o derradeiro
(minha alma magra, apertada como o guincho de um rato
pânico transparente, pedra suja no mar do norte
entranhas doídas como um peixe no mar do norte)
- nem posso sentir meus dedos!

mais um dia ganho, de tantos perdidos






a presença abrangente da vida em toda a sua glória - tanto perfume e regozijo - não impede nem contradiz essa mágoa. a vida é só um esconderijo pra gente brincar de aprendiz. lá fora não há trégua, aqui a gente sofre feliz

ainda é cedo e já há muita coisa que esqueço
mas na cigania apreendi certas frases que não me largam:
- a única certeza a se ter é que com o amor chegam as cartas de ódio
- desentendimento começa com des e termina em lamento
- mesmo os mais doces episódios amargam
- despedida é a todo momento

a cada 15 minutos uma explosão silenciosa ocorre da qual não tenho controle
(sou só instrumento com os olhos estrelados, chorados de porre)
matei a velocidade do tempo, dancei como se ninguém estivesse morrendo
sou náusea e defeito do meu ocaso, mutação passiva onde extravaso
sou aquela louca fora da pedreira atirando a primeira pedra
atirando a segunda pedra
meu grito cristalizado e fedendo

admirar o próprio umbigo resulta em parca umbiguidade

aqui nesse prédio da alameda lilás
mora minha irmã mordaz
ela no limite do limão - não, sério!
"ontem você disse que ia parar de beber!"
"e parei! ontem."

minha paciência já passou das 18:45






saiu pra rua e encontrou uma casa no caminho
"ô casa, tá indo pra onde?"
"não tô indo, tô chegando!"
"onde que eu vou, onde que cê vai, tipo besti frendi!"
a casa mostrou os dentes, fez sorrindo:
"ando imitando o ainda vivo, entende?"

passado

se arrependimento matasse tinha morrido mil vezes: a primeira aos 3 anos de idade, a última anteontem à tarde

lembra-se dos sanguessugas?
parecem agora tão generosos
imersos no meu sono bêbado

eu costumava pensar na minha barriga
num calor confuso. pensava:
mudança, como um beijo, muda tudo

o problema é que eu também
pensei num momento triste:
meu desejo virou lamento
azedou o desejo, como já disse
e não de repente

estou pasma agora
repara
sou uma estrela cujo capitão não sabe seguir

tenho que conseguir uma nova cara

peão das flores

acabei de encontrá-lo
lá sob a neve e sem luvas
cortou minhas rosas vermelhas com cuidado e sem sangue
adicionou algum verde e um meio sorriso às minhas perguntas
- tão frio, mãos tão nuas - um cara durão e descontraído
esse meu peão das flores
sem égua


outra brincadeira:
o sol se põe em si
mas não se dá ou se esconde
ri, antes, onde quer que queira
ali, à beira do horizonte

partir e repartir

fui embora uma primeira vez
depois voltei, e mais uma vez
e assim fui, sempre repartindo


me parto no meu parto de filha, nuvem da minha mãe no quarto de deitar a doença. navego da ilha da mãe, sexta-feira que sou, me solto na última volta e pela última vez na fantasia, no sonho da mãe em que sou fada.

minha velha, meu elo, não me esqueça quando for
que mesmo ausente e partida
serei completa e sua
sempre

o cheiro do feio e a cor do castigo

tem coisa que na sua espessura é vista como loucura
mas criatura cria um pouco de cintura!


olha a cobra engolindo o rabo
já passou do meio da história
daqui a pouco engole a cabeça
pelo menos não morre de fome

dor madura só o tempo cura

felicidade bate e não dói
tristeza acaricia e a gente chora


existem dores jovens e vibrantes
uma brincadeira um prazer só
uma confusão de sentidos
um que é isso meu deus indefinido

mas quando a dor amadurece
e a pena também cresce
lágrimas gordas rolam sem critério
dolorida a vida é caso sério

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