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minha carreira terrestre

ouso cada oportunidade para analisar cabeças: esgueiro em silêncio, reparto os cabelos em busca de coisas loucas que não serão esquecidas ou analisadas (coisas postas em prática, não em postas). não há grandes e vitais verdades, há apenas um escape do esquecer da escapatória que não existe porque é fútil resistir. confuso? meu conselho: simplesmente siga semeando, como eu

meu caminho terráqueo é errático, ora hora ora lugar (depende de quem sente) e quem não for, não por favor

eu sinto - eu sinto muito - uma felicidade impagável, irreparável, imprescindível. o mal de viver muitas vidas numa só, o mal de viver a braveza da gravidade - a graveza, às avessas e às vezes na pressa, minha moça!

descobri o por quê da raça, da família que se abraça na aliança: criar suas crias em segurança, cuidar que seus neurônios se desenvolvam para além dos ombros, que seus membros (todos) se movam, que seus olhos sorriam e se comovam (uma pena a gangrena)

eu gosto eu e o outro sim - você. de resto, amemos

cão, olha aqui meu coração - essa coisa tão bela que você cadela!

'somos os duendes ocos, somos os duendes estufados' (t.s.eliot)

meu humor tosco é um tumor oco
que sangro a cada hóstia ingerida
(e regurgitadamente medida)
não malamal, mas dividindo o tempo
(proteína foto-síntese maré)
inventariando a perda, sonhando a droga
pensando o ser que quanto mais tem menos é

eu? quase esquecida
me dispo dos meus deuses pra dormir
(- que desconcerto, que tom ingrato!)
e quando acordo de novo invento a intenção
de sobreviver, de viver sobre tudo
de sobretudo viver

o drama do automático se roda sem dar corda

ontem em dia a gente sabia - hoje em noite é só zombaria

erros são coisas vivas, transformativas, um aí estamos - ou não estamos
e mesmo que os mestres morram - que triste ficarmos mais pobres
e mesmo que tudo só nos traga lembranças soltas - que sequer podemos tocar
e mesmo que até a indiferença nos abandone - ah, quanta miséria nos sorri
erros serão sempre mutações - mesmo no estamos aí e mesmo no não estamos nem aí

o que eu vejo é o bocejo

essa extensão de território ['que se abrange com um lance de vista'], sempre a mesma ou sempre uma outra - não me interessa. era poeira ou era barro - a paisagem me passa. fico parada em frente à parede olhando o nada, às vezes sonhando a rede, às vezes sonhando a vidraça

minha mente é perfeita
meu corpo é perfeito
e eu mesmo assim na espreita
com meu único peito

coisa-e-tal e me solto
vou ali e já volto
comprar tempo no futuro
enquanto me desfiguro

menina de muitos anos
nascida vivida morrida
e ainda com muito a seguir

qualquer que seja a direção
o que existe é a inércia
no espaçotempo de existir

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