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raposas do ártico

eu sou uma raposa ártica. meus olhos são cegos, mas posso ver o futuro. sou casada com outra raposa ártica - minha esposa raposa - e eu a amo tanto! nós corremos muito rápido, somos ágeis, totalmente silenciosas. a-do-ro a idéia do estilo dos nossos penteados, dizem que indo pra todo lado. e agora tenho uma forte visão do seu - o seu, hey, sim, o seu! - esqueleto

aqui um brinde à boa dor
à falsa farinha que se canta e decanta
à entrega com excesso a coisas ruins
ao nunca parar nunca, ao compositor
em seu constante estado de atolamento
ao inventado no desespero e no pouco caso
(à wanda da ziza que logo vem
super simpática ela também)
e à devida proporção das consequências:
se vai vai se não vai vai vai
meu moleque doido!

perdura


eu me deixo levar pelo mar
me deixo rolar
eu me deixo trazer pela maré
me deixo ralé


o que é que se perde, que já não foi perdido?
se tudo adquirido não reside no eu
por que chorar pelo que se perdeu?
um fato da vida é essa constante conquista
de sentimentos em seguida desprezados
(e nossa consequente, incansável derrota)

a natureza humana se devasta a cada ano
os odeios e te amos são nossa paisagem
- montanhas de detritos se acumulando
tudo arrasado e arrastado por máquinas
novas, lindas, caras, rodando a sangue
brilhantes ao sol e ao suor e à ruína
e nós crescendo, exímios no prejuízo
(mesmo se o que perdemos foi demais
pelo menos por um momento fugaz)

nosso lamento anda de rastos, melindrado
um extrato de grito perfeito e esquecido
extremamente sentido em um segundo
que perder só dói uma dor de sonho, uma dor
suada, silenciosa e silenciada, quente demais
debaixo desse cobertor infantil, ensurdecedor
(o buraco é fundo acabou-se o mundo)

sem trilha sonora, sem mesmo um olhar

"estou contentíssima
com a linda profissão
de costureira. tenho
um salão, e ganho
cr$ 300.000 ou
ncr$ 300,00
por mês.
caconde - são paulo"


amadurecer foi queda braba
primeiro quebrou-me o cabo
depois me estatelei no chão
onde, escarranchada pela experiência
regozijei-me no processo
aí veio a infinita tristeza do saber
o reconhecer da impotência
- a mesma da infância, pensando bem
(melhor não pensar)

mas triste mesmo foi me afastar lentamente

aparência é essência?




arde de tudo, mesmo tarde de tudo

o mundo seria melhor se eu fosse essa ou aquela outra?
se eu fizesse mais que faço, o quilo teria mais gramas?
e se meu sonho fosse só uma cama mais macia - seria?
duvido que se minha boa vida fosse a medida de tudo
soluções fossem sem soluços
ou exercícios sem sombras:

o sapo com um cisto no cílio
um parasita
desenvolve vários membros
nove novas pernas
cinco braços finos
um monstro enfim - seria?
o parasita é só mais um ser num ser

minhas formas e sonhos acanhados (não tacanhos)
são matéria que não sou eu
há nela uma beleza que me escapa e me empunha
se a tivesse saberia que anoitece
seria testemunha

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