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perdura


eu me deixo levar pelo mar
me deixo rolar
eu me deixo trazer pela maré
me deixo ralé


o que é que se perde, que já não foi perdido?
se tudo adquirido não reside no eu
por que chorar pelo que se perdeu?
um fato da vida é essa constante conquista
de sentimentos em seguida desprezados
(e nossa consequente, incansável derrota)

a natureza humana se devasta a cada ano
os odeios e te amos são nossa paisagem
- montanhas de detritos se acumulando
tudo arrasado e arrastado por máquinas
novas, lindas, caras, rodando a sangue
brilhantes ao sol e ao suor e à ruína
e nós crescendo, exímios no prejuízo
(mesmo se o que perdemos foi demais
pelo menos por um momento fugaz)

nosso lamento anda de rastos, melindrado
um extrato de grito perfeito e esquecido
extremamente sentido em um segundo
que perder só dói uma dor de sonho, uma dor
suada, silenciosa e silenciada, quente demais
debaixo desse cobertor infantil, ensurdecedor
(o buraco é fundo acabou-se o mundo)

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