...................................................................................................

romance



os olhos nunca mentem, mas não se pode confiar nos cílios de ninguém

minúsculo e raso,
delirantemente fraco
o sabor do café

aqui, senhor: essa ferida sobrou
está esquecida, como a cama
como a esmeralda, amor

lembra-se do néctar?
da necessidade de manipular
coisas grossas?

minha cara tímida no chuveiro
seu sussurro pantanoso
(você vestindo músculos)
eu contusões)

ai, que divertido que foi despertar!
com certeza foi





poeta velho



bravo, rabugento
lírico, sensitivo

um verdadeiro e maravilhoso
filho da puta





veio me infelicitar, é?



mereço o título de lelé
sou uma grande imbecil
e digo isso com muito orgulho

te sorrio meus dentes falsobrancos
sentada num sofá de plástico
totalmente estática
produzindo e comendo entulho

mas não quero nenhum poder
portanto o mundo está salvo
da minha loucura

somos todos o fogo
somos todos suspeitos
como se proteger de algo assim?

tanta brutalidade cretina
que me cale ou me enterre?
no meu hipotético e cáustico solo
pra me tornar planta, é?

então canto meu solo
parece música criminosa
sem multidão, eu no meu canto

tenho uma sensação de fim de era
de coisas irreversíveis acontecendo
coisas pequenas do tamanho do mundo





diga-me com quem advogas que não te digo mais nada



na piscina, óbvio
as conclusões foram lodosas
- deve ser a poeira atômica





princípios são só meios pra certos fins

















ministério público propõe multa por assassinato


estou de despedida - que tal um beijo fumegante, delicioso, dilacerante, fungoso?

incomodo?
menti a fúria que prometi porque sua visão de vencedor não é tão absoluta ou onipresente quanto sente. de qualquer modo, essa paisagem do sucesso me parece abstracta demais, em linhas que sobem e descem com cores muito mornas, vagas, ocas, rapaz!

mas no jantar, meu velho, queimaremos os vários lados fazendo uma outra mistura que envenene - uma sopa de pura cultura.
e dizem que bom pros genes.





psicopata-sapiens



prole deste planeta, ando espantada
com o baixo nível dos cuidadores
nossas próprias criaturas

é a ganância no sangue
eu suponho

quando abandonamos o primitivo
ficamos preguiçosos
- qué doce qué amante qué poder, quéquéqué -
e aí algo arrebenta

então ainda escolhemos uns lokos
para organizar alimentos, moradia
bandido na prisão
nos controlar, sugar nossos filhos
tudo pro nosso entretenimento
enquanto trabalhamos
cérebro perdido

eu não entendo que crescer
torne-se pura destruição
simplesmente porque sim

é fim da evolução para nós
ou a próxima mutação
psicopata-sapiens

eu certamente não vou adiante
sou célula morta

milhões de mim vão partir para outras misturas
e vossas memórias guardarão minh'alma

sinto por perder eu e você
e temo, mas consciência é isso
e curiosidade

mas que pena os maus governantes





o direito nem sempre é destro



espero que seus deuses cuidem bem de todos
porque, olha, estamos fazendo uma bagunça gloriosa
porque agora, sentados e comendo pipoca
pais colocam em risco a vida de filhos
(animais que comem a própria cria)
e suas mães e avós e ancestrais
e as crianças - nós - crescendo
puxando gatilhos
matando outras crianças
rivais

e porque aqui estão os investidores
turbilionários que precisam enriquecer mais
é apenas um jogo
festa

a melhor palavra para isso - roteiro
da besta humana - é uma verdade
e uma fábula, e cruel
e queremos ouvir sempre a mesma história
e de novo e ainda


nossos deuses nos abandonaram
todos eles - e talvez seja essa a razão
talvez não
algumas pessoas ainda carregam o seu
parece ser humano isso
deus





basta



inacreditável é a verdade
e desprezível

as notícias são esmagadoras e tristes
há um circo a rodar
há entretenimento e dinheiro
há muito sangue inocente
algumas pessoas cheias de gordura no cérebro
outras sem gordura alguma
e eu possivelmente envelhecendo rápido
no passar deste docudrama

muito melhor amarga
presto atenção na perplexidade
e compartilho nossa carga

mas não vou lhe dar mais nada
nenhum centavo a mais
nem atenção





estamos aqui!



que confusão múltipla
e que multidão cúmplice


vou indo num fluxo
solitário
mas lento e doce

o rio me insta
a tudo que passa
- Ahoy!

estivemos aqui





direito consuetudinário é um direto



visão incontinente

o Profeta do Proveito falou
certas palavras de vermute:
'vêm meus meninos, saqueemos!'

agora, quanto mais tempo linguarmos
no nosso salão longeval
tanto mais tongeremos
na vantagem por bemal

e nesse círculo vão





no fundo da floresta trofecal



uma idéia pode dizimar o que é real

há uma guerra assolando o coração do mundo
pessoas como você morrerão amanhã
no coração do mundo

tudo perde o sentido
torna-se um instantâneo
- de imediato esquecido -
e logo haverá outro vindo
algo tão assombroso
que ficará dois instantes a mais
para ir de novo
num florir digital

essas palavras também
nada significam





muito pouco mudou



foi meu próprio sopro que silenciou
meu próprio e brando sopro
foi-se meu fôlego num arfar cansado
exprimo agora o ar que me descabe

pra que me servem os olhos espessos?
pior é a emenda desse cimento, grudando
mole tanto tremor, líquido triste
e sem sal

e eu cem mil milhões de milhões de milhões
sim, 100 sestilhões de estrelas
além da matéria negra que existe
e ninguém vê

o momento em que sou
está aqui
e já passou





Archive

Followers